quinta-feira, 9 de julho de 2026

A Ideia do Inferno no Judaísmo e Cristianismo

 


Na tradição bíblica judaica, o conceito de um inferno com sofrimento eterno não existia da forma como é popularmente compreendido hoje. Esse modelo teológico formou-se posteriormente e foi moldado de maneiras muito diversas pelos primeiros cristãos e pela tradição patrística. 

Abaixo segue uma análise da evolução histórica desse pensamento:
1. A Tradição Bíblica Judaica: \(Sheol\) e \(Geena\)
No texto hebraico original do Antigo Testamento, não há um conceito de "inferno" como um local de punição pós-morte. 
  • Sheol: Era a palavra usada para descrever o destino comum de todos os mortos — justos e injustos. Tratava-se simplesmente da "sepultura" ou do mundo subterrâneo, um estado de sombra, esquecimento e ausência de consciência. 
  • Geena (Vale de Hinom): Era um local físico ao sul de Jerusalém. No Antigo Testamento, associou-se a rituais pagãos do passado e, depois, tornou-se o lixão da cidade, onde os detritos e cadáveres de criminosos eram queimados constantemente. 
2. O Judaísmo Intertestamentário
Nos séculos que antecederam o cristianismo, sob influência da literatura apocalíptica e do contato com outras culturas da Antiguidade (como o zoroastrismo persa), a escatologia judaica começou a mudar. A ideia de ressurreição corporal e julgamento divino ganhou força. 
  • No pensamento dos fariseus do primeiro século, o Gehena deixou de ser apenas um vale geográfico e passou a ser um conceito espiritual para o castigo dos ímpios. 
  • Havia discussões divergentes sobre a duração desse castigo: alguns rabinos acreditavam que os perversos seriam totalmente destruídos (aniquilados), enquanto outros defendiam um período temporário de purificação ou tormento limitado, mas não uma condenação infinita. No judaísmo atual, o Gehinom é tido como um processo de purificação da alma (semelhante ao purgatório), com duração máxima de um ano. 
3. A Compreensão no Cristianismo Primitivo
Nos primeiros séculos do cristianismo, houve uma pluralidade de interpretações sobre o "fogo eterno" mencionado nos evangelhos. As visões dividiam-se entre diferentes correntes: 
  • Aniquilacionismo: Baseados em passagens do Novo Testamento que falam da "morte eterna" ou da destruição do corpo e da alma (ex: Mateus 10:28), alguns cristãos primitivos entendiam que os ímpios simplesmente deixariam de existir, em vez de sofrerem para sempre. 
  • Tormento Eterno: Outra vertente cristã interpretou o Geena como um local de tormento consciente e sem fim para os que rejeitassem a mensagem de Cristo. Essa visão foi fortemente defendida por vários Padres da Igreja e se consolidou como a doutrina ortodoxa hegemônica durante a Idade Média. 
  • Apocatástase (Restauração Universal): Uma das correntes mais fascinantes da igreja antiga, defendida por teólogos influentes como Orígenes de Alexandria, via os fogos do inferno como um mecanismo pedagógico e purificador. Ele acreditava que, eventualmente, pela infinita misericórdia de Deus, todas as almas — incluindo os demônios — seriam purificadas e reconciliadas com o Criador. 

A transição do conceito de descanso sombrio no Sheol para a doutrina de um inferno com tormento consciente e infinito levou quase seis séculos para se consolidar. Essa evolução ocorreu através do choque cultural, de debates linguísticos e de divisões teológicas profundas entre as principais escolas de pensamento da Igreja antiga.

1. A Helenização e a Tradução da Septuaginta (Séculos III a II a.C.)
A primeira grande mudança ocorreu antes de Jesus, quando as Escrituras Hebraicas foram traduzidas para o grego na Septuaginta. [1]
  • Os tradutores precisavam de uma palavra grega para Sheol (a sepultura neutra) e escolheram Hades (o submundo grego). [1]
  • Embora o Sheol original fosse um lugar de silêncio inconsciente, o Hades da mitologia grega já carregava uma forte bagagem cultural de julgamento, divisões (como o Tártaro para os maus e os Campos Elísios para os bons) e punição ativa.
  • Essa fusão linguística fez com que os judeus da diáspora e, posteriormente, os primeiros cristãos começassem a ler o Antigo Testamento sob lentes gregas de dualismo (corpo mortal versus alma imortal). [1]
2. O Contexto do Século I e os Termos do Novo Testamento
Jesus e os apóstolos pregaram em um ambiente palestino onde coexistiam diferentes filosofias. No Novo Testamento, o que as traduções modernas simplificam como "inferno" advém de três palavras gregas distintas:
  • Hades: Usado geralmente para o estado intermediário dos mortos (ex: Lucas 16, na parábola do Rico e Lázaro). [1]
  • Geena (Gehenna): Usado por Jesus para ilustrar a destruição. Apontava para o lixo em chamas fora de Jerusalém. Para os ouvintes da época, o fogo do lixão servia para consumir e destruir completamente o refugo, e não para mantê-lo vivo sofrendo.
  • Tártaro: Usado apenas uma vez (2 Pedro 2:4) para designar uma prisão espiritual para anjos caídos, importada diretamente da mitologia grega.
3. O Debate Teológico na Patrística (Séculos II a V d.C.)
Nos primeiros quatro séculos da Igreja, não havia um dogma único sobre o pós-morte. A Igreja Primitiva estava dividida geograficamente e teologicamente em três grandes correntes doutrinárias:
Corrente TeológicaPrincipal Região / DefensoresConceito do Inferno
Aniquilacionismo
(Imortalidade Condicional)
Síria e Ásia Menor
(Ireneu de Lyon, Arnóbio)
A alma não é inerentemente imortal. Deus concede a vida eterna apenas aos salvos. Os ímpios no "fogo eterno" são completamente destruídos e deixam de existir.
Apocatástase
(Universalismo Cristão)
Alexandria e Capadócia
(Orígenes, Gregório de Nissa)
O inferno existe, mas é medicinal e temporário. O fogo divino purifica as impurezas da alma. No final, toda a criação (até Satanás) será reconciliada com Deus.
Tormento Eterno
(Infernalismo)
Norte da África e Roma
(Tertuliano, Agostinho de Hipona)
A alma humana é imortal. O fogo do inferno é literal, físico e perpetuamente punitivo. Os condenados sofrem dores conscientes sem qualquer chance de fim ou redenção.
4. A Consolidação do Tormento Eterno com Agostinho
A virada teológica definitiva em direção ao conceito de inferno que conhecemos hoje ocorreu no século V, liderada por Agostinho de Hipona. Dois fatores políticos e linguísticos foram cruciais para essa vitória:
  • O Declínio do Grego no Ocidente: Teólogos ocidentais como Agostinho não dominavam o grego clássico e liam a Bíblia na tradução latina (Vulgata). O termo grego aionios (que historicamente significava "período de tempo", "relativo a uma era") foi traduzido para o latim como aeternum (infinito). Agostinho argumentou em sua obra A Cidade de Deus que, se a vida dos santos era infinita, o castigo do fogo também deveria ser estritamente infinito.
  • A Aliança com o Império Romano: Com a conversão do Império Romano ao cristianismo, a Igreja tornou-se uma instituição estatal de controle social. A teologia do tormento eterno e do medo do pós-morte funcionava como uma ferramenta política muito mais eficaz para manter a ordem e a obediência civil do que a ideia de aniquilação ou de restauração universal de Orígenes.
5. A Condenação da Apocatástase (Século VI)
O golpe final na diversidade de pensamento ocorreu no Segundo Concílio de Constantinopla (553 d.C.), sob forte pressão do imperador bizantino Justiniano. O concílio declarou oficialmente o universalismo e as teses de Orígenes como heresia. A partir desse ponto histórico, o modelo do tormento consciente eterno passou a ser a única visão considerada ortodoxa tanto pela Igreja Católica Romana quanto, mais tarde, pela Igreja Ortodoxa Oriental, moldando todo o imaginário ocidental da Idade Média. 

Cada uma das três correntes teológicas da Igreja Primitiva não inventava suas ideias do nada; todas se baseavam profundamente nas Escrituras Gregas (Novo Testamento) para construir seus argumentos. O debate girava em torno da tradução de termos e de qual metáfora bíblica deveria ser a lente principal para ler as outras.
Abaixo, veja as principais passagens e os argumentos textuais que cada grupo utilizava:

1. Passagens do Tormento Eterno (Infernalismo)
Os defensores do castigo consciente sem fim focavam nas passagens que descreviam o caráter permanente do julgamento e o sofrimento dos ímpios.
  • Mateus 25:46: "E irão estes para o castigo eterno (kolasin aionion), porém os justos, para a vida eterna (zoen aionion)."
    • O argumento: Defendido fortemente por Agostinho, este é o pilar da doutrina. O argumento é de simetria: se a vida dos justos dura para sempre, o castigo dos injustos deve durar exatamente o mesmo tempo, já que a palavra grega aionion é usada para ambos.
  • Marcos 9:43-48: Parábola sobre o Geena, "onde o seu verme não morre, e o fogo nunca se apaga".
    • O argumento: A imagem do verme que não morre e do fogo indestrutível sugeria que a punição e a consciência do punido seriam eternas, não havendo alívio ou fim para o sofrimento.
  • Apocalipse 14:11 e 20:10: O texto afirma que "a fumaça do seu tormento sobe para todo o sempre" e que o Diabo, a Besta e o Falso Profeta serão "atormentados de dia e de noite, para todo o sempre".
    • O argumento: Os literalistas viam aqui a descrição explícita de uma tortura ativa e ininterrupta em uma dimensão espiritual pós-julgamento.
2. Passagens do Aniquilacionismo (Imortalidade Condicional)
Esta vertente argumentava que o resultado do juízo final é a morte real e a cessação da existência, e não a manutenção da vida em sofrimento. Eles acusavam os infernalistas de introduzir a ideia pagã grega de que a alma humana é naturalmente imortal.
  • Mateus 10:28: "Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer destruir (apolesai) no Geena tanto a alma como o corpo."
    • O argumento: Jesus afirma claramente que a alma pode ser destruída (o verbo grego apollumi significa destruir totalmente, arruinar ou extinguir). Destruição é o oposto de preservação em sofrimento.
  • Romanos 6:23: "Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna..."
    • O argumento: Paulo contrasta morte com vida. Se o salário do pecado fosse o tormento eterno, o pecador ganharia uma "vida eterna no inferno". Para Paulo, o ímpio recebe a morte (inexistência), enquanto a vida é um presente exclusivo dado por Deus aos salvos.
  • Hebreus 10:27 e 12:29: Textos que descrevem Deus como um "fogo consumidor" e o julgamento como um "fogo ardente que há de devorar os adversários".
    • O argumento: O fogo na Bíblia serve para consumir até virar cinzas, extinguindo o que é queimado (como a palha ou a lenha), e não para manter o objeto queimando para sempre sem nunca se consumir.
3. Passagens da Apocatástase (Restauração Universal)
Os teólogos universalistas (como Orígenes e Gregório de Nissa) focavam nas dezenas de passagens que afirmam que o plano final de Deus envolve a salvação, a reconciliação e a submissão amorosa de toda a criação, sem exceções.
  • 1 Coríntios 15:22-28: "Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo... para que Deus seja tudo em todos."
    • O argumento: Paulo usa o mesmo termo ("todos") para a ruína em Adão e para a vivificação em Cristo. Se a queda afetou a humanidade inteira de forma absoluta, a restauração de Cristo deve ter o mesmo alcance absoluto, culminando com Deus sendo "tudo em todos", o que deixa de fora a existência de um inferno eterno.
  • Filipenses 2:10-11: "...para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor..."
    • O argumento: Na cultura judaica e romana, dobrar o joelho e confessar o senhorio de alguém voluntariamente era um ato de adoração e conversão genuína, e não de submissão forçada. Para os universalistas, isso profetiza a redenção final inclusive dos que estão "debaixo da terra" (no Hades).
  • Colossenses 1:19-20: "Porque aprouve a Deus... havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliar consigo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus."
    • O argumento: O texto afirma de forma explícita o objetivo cósmico de Jesus: reconciliar todas as coisas. Um inferno eterno com bilhões de almas rebeldes para sempre significaria uma derrota parcial do plano de reconciliação de Deus.

O nó linguístico: O significado de Aionios
O grande campo de batalha exegético entre essas escolas era a palavra grega aionios (traduzida como "eterno").
  • Os infernalistas diziam que ela significava "sem fim no tempo".
  • Os universalistas provavam, usando a própria literatura grega clássica e a Septuaginta, que aionios vem de aion (uma era, um período de tempo delimitado). Para eles, o "castigo eterno" (kolasin aionion) de Mateus 25:46 significava literalmente "um castigo podador pertencente à era vindoura". Além disso, a palavra grega para castigo usada ali (kolasis) vinha da agricultura e referia-se à poda de árvores para que voltassem a crescer saudáveis, denotando uma punição corretiva e medicinal, e não uma vingança sem fim.
A consolidação da doutrina do tormento eterno no século VI transformou profundamente a civilização ocidental, enquanto o judaísmo seguiu um caminho teológico completamente distinto. Abaixo, analisamos as consequências dessa divisão em duas partes estruturadas.

Parte 1: As Consequências Sociais e Psicológicas na Europa Medieval
A vitória da visão do tormento eterno (infernalismo) moldou a mentalidade, as instituições e o cotidiano da Idade Média, tornando o medo o principal motor social da época.
Consequências Psicológicas
  • Ansiedade Existencial Coletiva: A vida terrena passou a ser vista como um campo de testes perigosíssimo. A incerteza constante sobre a salvação gerava crises de escrupulosidade e pânico moral generalizado.
  • Terror Infantil e Trauma: Desde a infância, as pessoas eram expostas a sermões e imagens gráficas de demônios arrancando peles e torturando pecadores, internalizando um medo profundo do escuro, da morte e do próprio Deus.
  • Obsessão pela Morte (Memento Mori): O foco da existência mudou do "viver bem" para o "morrer bem". A arte, a literatura e a filosofia medievais orbitavam em torno da fragilidade da vida e dos horrores que aguardavam a alma após o último suspiro.
Consequências Sociais e Políticas
  • A Economia da Salvação (Indulgências): A Igreja posicionou-se como a única detentora das "chaves" para evitar o inferno. Isso gerou um mercado financeiro espiritual bilionário, baseado na venda de indulgências, missas pelos mortos e relíquias sagradas para diminuir o tempo de sofrimento no Além (consolidando também a doutrina do Purgatório). 
  • Justificativa para a Violência e a Tortura: Se Deus castigaria os heréticos com fogo físico e eterno no inferno, queimar um herético na fogueira da Inquisição por algumas horas era visto como um ato misericordioso. A lógica era que a tortura terrena poderia fazê-lo confessar e salvar sua alma da tortura infinita.
  • Controle Social e Submissão Política: Monarcas e líderes eclesiásticos utilizavam a ameaça da danação eterna e da excomunhão para suprimir revoltas camponesas, garantir o pagamento de impostos (dízimos) e manter a rígida hierarquia feudal intacta.

Parte 2: O Judaísmo Rabínico Atual e o Julgamento
Enquanto o Cristianismo focou intensamente no pós-morte, o Judaísmo Rabínico desenvolveu-se concentrando-se na ação prática neste mundo (Tikkun Olam — reparar o mundo). O conceito de um inferno de tortura perpétua é alheio ao pensamento judaico dominante contemporâneo. 
1. O Foco no "Aqui e Agora"
No judaísmo, o foco não é garantir uma vaga no céu, mas sim cumprir as Mitzvot (mandamentos) de Deus na Terra. Não existe o conceito de "pecado original" que condena a humanidade por padrão; o ser humano nasce neutro, com inclinações para o bem (Yetzer Hatov) e para o mal (Yetzer Hara).
2. O Processo de Julgamento Humano
  • Rosh Hashaná e Yom Kipur: O julgamento divino mais importante para o judeu acontece em vida, anualmente. No Ano Novo Judaico (Rosh Hashaná), Deus abre os livros do julgamento, e no Dia do Perdão (Yom Kipur), o destino da pessoa para o ano seguinte é selado. O arrependimento (Teshuvá), a oração e a caridade têm o poder de reverter decretos ruins.
3. O Pós-Morte: Gehinom e Olam Ha-Ba
O judaísmo rabínico divide o além em duas ideias principais:
  • Gehinom (ou Geena): Não é um lugar de punição eterna ou de tortura por demônios. É entendido como um processo de purificação intensiva da alma, uma espécie de "máquina de lavar espiritual". A alma revisita seus erros e sente vergonha deles para se limpar.
    • Duração Limite: Segundo o Talmude, o período máximo que uma alma comum passa no Gehinom é de 12 meses. Por isso, quando um parente morre, os filhos recitam a oração dos mortos (Cadixe) por no máximo 11 meses (para não presumir que o pai ou a mãe era uma pessoa totalmente perversa que precisaria do tempo máximo).
    • Aniquilação total: A teologia rabínica assume que apenas os extremamente perversos (como tiranos genocidas) que não demonstram nenhum arrependimento deixam de existir completamente (aniquilação) após esse período, em vez de sofrerem para sempre. [
  • Olam Ha-Ba (O Mundo Vindouro): É o destino final de harmonia espiritual e proximidade com Deus. O judaísmo defende que "os justos de todas as nações têm um lugar no Mundo Vindouro". Ou seja, ao contrário do exclusivismo cristão medieval, uma pessoa não precisa ser judia para ser salva; basta viver uma vida ética e justa. [1]

A Reforma Protestante do século XVI promoveu uma enorme quebra de paradigmas na teologia europeia, mas, no que diz respeito à existência e à duração do inferno, os reformadores mantiveram a essência da visão medieval. No entanto, eles alteraram radicalmente o caminho para se evitar o inferno e modificaram a geografia do além. [1, 2]
Abaixo, veja como os reformadores mantiveram e alteraram esse conceito:
O que os Reformadores Mantiveram
  • O Tormento Eterno Consciente: Tanto Martinho Lutero quanto João Calvino rejeitaram completamente o aniquilacionismo e o universalismo (a apocatástase). Eles mantiveram o dogma agostiniano de que o inferno é um lugar real, definitivo e de sofrimento eterno consciente para os réprobos. [1]
  • A Literalidade e a Gravidade: O inferno continuou sendo o destino final e aterrorizante para a maior parte da humanidade. A soberania e a justiça de Deus exigiam a punição infinita do pecado, visto que o pecado era cometido contra um Deus infinito. [1]

O que os Reformadores Alteraram
1. A Abolição do Purgatório
A maior alteração geográfica e teológica foi a extinção do Purgatório. Para a Igreja Católica Medieval, o além era dinâmico: a maioria das pessoas ia para o Purgatório para ser purificada antes de entrar no Céu.
  • Os reformadores argumentaram que o Purgatório era uma invenção humana sem base bíblica, usada para sustentar o comércio de indulgências. 
  • Com a abolição do Purgatório, o além-túmulo tornou-se estritamente binário e imediato. Ao morrer, a alma ia diretamente para o Céu ou diretamente para o Inferno, sem segundas chances, sem intermediários e sem orações que pudessem mudar o destino dos mortos.
2. A Mudança na "Rota de Fuga": Da Causa Eficiente às Cinco Solas
Na Idade Média católica, o fiel evitava o inferno por meio dos sacramentos da Igreja, da confissão auricular regular, das boas obras, da caridade e da compra de indulgências.
  • A Reforma introduziu a doutrina da Justificação pela Fé Somente (Sola Fide). O homem não se salva por seus próprios méritos ou obras, mas unicamente pelo sacrifício de Jesus na cruz. [
  • O medo do inferno mudou de foco: no catolicismo medieval, o medo era de "não fazer boas obras e rituais o suficiente"; no protestantismo (especialmente no calvinismo), o medo passou a ser o de não ter uma fé genuína ou de não fazer parte dos "eleitos" escolhidos por Deus desde antes da fundação do mundo (Predestinação). 
3. Espiritualização do Fogo (Calvino)
Embora mantivessem o rigor do castigo, alguns reformadores começaram a interpretar as descrições bíblicas de forma menos antropomórfica do que a arte medieval.
  • João Calvino, em sua obra Institutas da Religião Cristã, afirmou que termos como "fogo eterno", "bicho que não morre" e "trevas exteriores" eram metáforas bíblicas para descrever uma realidade espiritual ainda pior: o peso psicológico e existencial da total separação de Deus e a tortura da própria consciência culpada. Para Calvino, o tormento era real e eterno, mas não necessariamente provocado por chamas físicas de enxofre. 
4. A Reação Radical: O Ressurgimento do Aniquilacionismo
Embora a "Reforma Magisterial" (Lutero e Calvino) tenha mantido o inferno medieval, a chamada Reforma Radical (os Anabatistas e os Socinianos) foi muito mais longe.
  • Grupos anabatistas e pensadores radicais voltaram a ler os Pais da Igreja pré-Agostinho e ressuscitaram o Aniquilacionismo (ou sono da alma até a destruição final). Eles argumentavam que a imortalidade da alma era um conceito filosófico grego e que o inferno tradicional contradizia o amor de Deus. No entanto, esses grupos foram duramente perseguidos tanto por católicos quanto pelos protestantes tradicionais. 

Conclusão
Em suma, a Reforma Protestante desmantelou o "sistema econômico da salvação" da Idade Média (indulgências, missas de sufrágio, purgatório), mas preservou o medo e a certeza do tormento eterno como o destino final dos que não abraçassem a fé cristã correta. O universo espiritual ocidental tornou-se mais polarizado: sem o Purgatório como amortecedor, o destino pós-morte virou uma linha direta e irrevogável entre a glória eterna e a danação eterna.

BIBLIOGRAFIA
Para se aprofundar na história teológica, linguística e social do conceito de inferno e do pós-morte, aqui está uma seleção de obras fundamentais divididas por abordagem:
1. Evolução Histórica e Teológica Geral
  • "The Formation of Hell: Death and Retribution in the Ancient and Early Christian Worlds"Alan E. Bernstein
    • O que aborda: Uma obra de referência monumental que rastreia detalhadamente como o Sheol judaico, as ideias egípcias, o submundo grego e as correntes intertestamentárias se fundiram para moldar o inferno cristão antigo.
  • "A História do Inferno"Georges Minois
    • O que aborda: Uma excelente análise histórica e sociológica que mostra como a percepção do inferno mudou ao longo dos séculos, cobrindo detalhadamente a Idade Média, a Reforma Protestante e o declínio do medo do inferno na modernidade.
  • "Inventing Hell: Dante, the Bible, and Eternal Torment"Jon M. Sweeney
    • O que aborda: Examina a desconexão entre o texto bíblico original e a construção literária e artística do inferno que herdamos, com foco no impacto de Dante Alighieri.
2. O Debate entre as Correntes do Cristianismo Primitivo
  • "O Inferno Está Vazio? O que Jesus, a Bíblia e a História da Igreja Dizem Sobre o Pós-Morte" (título original: Love Wins)Rob Bell
    • O que aborda: Uma obra de teologia popular de grande impacto que reacendeu o debate sobre o universalismo e o aniquilacionismo, resgatando os argumentos de Pais da Igreja como Orígenes de Alexandria.
  • "Quatro Visões sobre o Inferno"William Crockett (Org.)
    • O que aborda: Um livro em formato de debate acadêmico onde defensores contemporâneos apresentam e contra-argumentam as principais visões: literalista (tormento físico), metafórica (tormento espiritual), aniquilacionista (imortalidade condicional) e universalista (restauração final).
  • "The Fire That Consumes: A Biblical and Historical Study of the Doctrine of Final Punishment"Edward Fudge
    • O que aborda: O estudo acadêmico definitivo em defesa do Aniquilacionismo. Analisa minuciosamente os termos em grego e hebraico e reconstrói o processo histórico de como a Igreja abandonou essa visão em favor do tormento eterno.
  • "The Evangelical Universalist"Gregory MacDonald (pseudônimo de Robin Parry)
    • O que aborda: Uma defesa teológica rigorosa e moderna da Apocatástase (universalismo cristão), argumentando como essa visão se harmoniza com as Escrituras e a soberania divina.
3. A Visão do Judaísmo
  • "The Jewish Book of Why"Alfred J. Kolatch
    • O que aborda: Explica de forma acessível os fundamentos das práticas e crenças judaicas, incluindo por que o judaísmo rabínico atual não foca no inferno e como funciona o conceito de Gehinom e a recitação do Cadixe.
  • "Maimonides' Commentary on the Mishnah: Tractate Sanhedrin" (Capítulo 10 / Perek Chelek)Maimônides (Rambam)
    • O que aborda: Texto clássico do maior filósofo judeu medieval, onde ele delineia os treze princípios da fé judaica, a natureza do Olam Ha-Ba (Mundo Vindouro) e a ressurreição, afastando completamente as visões antropomórficas de tortura eterna.



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