sexta-feira, 3 de julho de 2026

A Teologia da História da Salvação em Oscar Cullmann

 


Oscar Cullmann (1902-1999)


A teologia de Oscar Cullmann foca na história da salvação (Heilsgeschichte). Ele vê o tempo bíblico como uma linha reta conduzida por Deus. Jesus Cristo é o centro absoluto. Cullmann usa a analogia do "Dia D e Dia V" da Segunda Guerra para explicar o "já, mas ainda não" do Reino de Deus. 

A Linha do Tempo e o Centro
Para o teólogo, a Bíblia não é apenas uma coleção de ideias. Ela é o registro de um plano histórico real. A história de Israel, a criação e a consumação final estão na mesma linha temporal. 
Pense na história como uma longa estrada. O meio dessa estrada é a morte e ressurreição de Jesus Cristo. Antes Dele, o Antigo Testamento aponta para esse evento. Depois Dele, a história caminha para a vitória final. 
A Analogia da Guerra: Já, mas ainda não
Cullmann usa a analogia da Segunda Guerra Mundial para explicar como a salvação funciona na história:
  • O Dia D foi o momento decisivo. A vitória na Normandia garantiu o fim da guerra. Na teologia de Cullmann, o Dia D é a cruz e a ressurreição de Jesus Cristo. O mal foi derrotado. 
  • O Dia V foi o fim oficial da guerra. Entre o Dia D e o Dia V, houve um tempo de espera. As batalhas ainda aconteciam, mas o resultado final já estava decidido. Na Bíblia, esse tempo de espera é o nosso presente. O Reino de Deus "já" chegou, "mas ainda não" se manifestou em sua totalidade. 
Por que isso importa?
Com essa visão, Cullmann combateu a ideia de que a salvação é apenas um mito fora do tempo. Ele mostrou que os eventos históricos da vida de Jesus são o coração da fé cristã. A história humana tem sentido e direção, e caminha para o seu cumprimento final pelas mãos de Deus. 

COMO O PENSAMENTO DE CULMANN AFETA A ESCATOLOGIA?


Na visão de Oscar Cullmann, a teologia da história da salvação transforma a escatologia (o estudo do fim dos tempos) em uma realidade presente, e não em algo jogado apenas para o futuro distante.
Abaixo estão os pontos centrais de como a sua perspectiva afeta a escatologia:
1. O Fim Começou no Meio da História
Para a maioria das correntes teológicas, o "fim dos tempos" acontece no último capítulo da história humana. Cullmann inverte essa lógica.
  • O evento escatológico decisivo já aconteceu na vinda, morte e ressurreição de Jesus Cristo.
  • O "centro da história" (a ressurreição) é o próprio poder do fim dos tempos invadindo o presente. 
2. A Tensão do "Já" e "Ainda Não"
A escatologia de Cullmann vive em uma tensão constante que molda a vida da Igreja:
  • Já: A vitória sobre o pecado, a morte e as forças do mal já foi conquistada na cruz. Os cristãos já experimentam os dons do Espírito Santo e a nova criação.
  • Ainda Não: O mundo ainda sofre com guerras, doenças e dores. A manifestação visível e completa dessa vitória só ocorrerá no retorno de Cristo (Parusia).
3. O Tempo Presente como a "Última Hora"
O período entre a ressurreição de Cristo e a sua segunda vinda (o tempo em que vivemos hoje) não é um vazio orquestrado pelo acaso. É o tempo da Igreja e das missões.
  • Este intervalo existe por causa da paciência de Deus, dando oportunidade para que o Evangelho seja pregado a todas as nações.
  • A escatologia, portanto, impulsiona a ação e o evangelismo no presente, em vez de gerar um isolamento passivo à espera do fim. 
4. Rejeição da Escatologia Consequente e Existencial 
Cullmann usou sua visão linear do tempo para combater duas tendências fortes de sua época:
  • Contra Albert Schweitzer (Escatologia Consequente): Schweitzer dizia que Jesus esperava o fim do mundo imediato e falhou. Cullmann responde que Jesus inaugurou o Reino e que o adiamento do fim faz parte do plano cronológico de Deus. 
  • Contra Rudolf Bultmann (Escatologia Existencial): Bultmann desmitificava a Bíblia e dizia que o fim dos tempos era apenas uma decisão interna e existencial de cada indivíduo aqui e agora. Cullmann rebate insistindo que a escatologia depende de eventos cronológicos e históricos reais que culminarão no futuro.
Em resumo, para Cullmann, o futuro não traz uma vitória nova, mas sim a consumação pública e total de uma vitória que Jesus já obteve no passado.
A teologia de Oscar Cullmann se destacou no século XX por defender a historicidade e a linearidade do tempo bíblico. Sua abordagem da Heilsgeschichte (História da Salvação) entrou em rota de colisão direta com os maiores gigantes teológicos de sua época, que tentavam adaptar o Novo Testamento à filosofia moderna. 
Abaixo está o panorama de como a visão de Cullmann se diferencia das três principais correntes da época:
O Grande Debate do Século XX: Cullmann vs. Contemporâneos
Teólogo / Corrente Posição CentralDivergência de Cullmann
Rudolf Bultmann
(Escatologia Existencial)
O mito bíblico deve ser eliminado. O "Reino de Deus" é uma decisão interior e existencial que o indivíduo toma no momento presente.Cullmann rebate: O tempo e a história real importam. A salvação não acontece apenas na mente do crente, mas em eventos históricos concretos (Cruz e Ressurreição).
Albert Schweitzer
(Escatologia Consequente)
Jesus pregou o fim do mundo imediato. Diante do erro dessa previsão, a Igreja teve que se reinventar. Jesus falhou em sua expectativa.Cullmann rebate: Jesus não errou. O adiamento do fim já estava previsto no plano de Deus. O tempo da Igreja é o período estratégico para as missões globais.
Karl Barth
(Teologia Dialética / Neo-ortodoxia)
Deus é o "Totalmente Outro". A eternidade invade o tempo de forma vertical. A história humana e a história divina pertencem a esferas diferentes.Cullmann rebate: A eternidade não anula o tempo. Deus se revela ao longo de uma linha horizontal contínua. A história sagrada e a história comum caminham juntas.

1. Cullmann vs. Rudolf Bultmann: História Real vs. Existencialismo
Bultmann utilizava a filosofia de Martin Heidegger para argumentar que os milagres, a ressurreição física e a segunda vinda eram "mitos" que a ciência moderna não podia aceitar. Para ele, o que importava era o Kerygma (a mensagem) que exige uma resposta hoje.
  • A diferença: Bultmann reduziu a escatologia ao "instante presente" da decisão humana. Cullmann acusou Bultmann de dissolver o cristianismo em mera filosofia. Para Cullmann, se você remover os fatos históricos da linha do tempo (o nascimento, a cruz, o túmulo vazio), a fé cristã perde totalmente o seu fundamento.
2. Cullmann vs. Albert Schweitzer: O Sentido do Atraso da Parusia
Schweitzer chocou o mundo teológico ao afirmar que Jesus morreu frustrado porque o fim do mundo que Ele anunciou não chegou.
  • A diferença: Schweitzer via o "atraso" do fim do mundo como uma crise teológica intransponível. Cullmann, por outro lado, demonstrou que o Novo Testamento já lidava com esse intervalo de forma natural. Esse "atraso" não é um erro de cálculo, mas o próprio "tempo da Igreja", um espaço deliberado dado por Deus para a evangelização do mundo. 
3. Cullmann vs. Karl Barth: Tempo Linear vs. Eternidade Vertical
Karl Barth queria resgatar a soberania de Deus e dizia que a eternidade intersecta o tempo de cima para baixo, como um raio que atinge o chão. Para Barth, o tempo humano é irrelevante perto da transcendência divina.
  • A diferença: Cullmann rejeitava a ideia grega de que o tempo é uma prisão e a eternidade é a "ausência de tempo". Ele argumentava que, na Bíblia, a eternidade é simplesmente o tempo de Deus que se estende infinitamente para o passado e para o futuro. Deus não destrói o tempo; Ele caminha dentro dele.
O coração do argumento de Cullmann contra esses autores baseia-se na distinção que ele faz de duas palavras gregas.  Chronos (tempo do relógio) de Kairos 
Para Oscar Cullmann, o vocabulário do Novo Testamento é a prova fundamental de que a Bíblia não enxerga o tempo como um conceito filosófico abstrato, mas como o cenário da ação de Deus. A diferenciação entre Chronos e Kairos é a chave que ele utiliza para desarmar as críticas de Bultmann e Schweitzer.
Aqui está como Cullmann define e aplica esses dois conceitos gregos:
1. Chronos (χρόνος): O Tempo Quantitativo
O Chronos é o tempo do relógio, do calendário e da astronomia. É a sucessão linear e ininterrupta de segundos, minutos, dias e anos.
  • É o tempo físico que avança de forma constante do passado em direção ao futuro.
  • Na teologia de Cullmann, o plano de Deus se desenrola dentro do Chronos. Deus não ignora a linha do tempo humana; Ele escolheu agir ao longo dela.
2. Kairos (καιρός): O Tempo Qualitativo
O Kairos não se refere à quantidade de tempo, mas à qualidade de um momento. Significa o "momento certo", a "oportunidade única" ou o "tempo divinamente determinado".
  • No Novo Testamento, um Kairos é um ponto específico na linha do Chronos que Deus escolheu e santificou para realizar um ato central da salvação.
  • Não é um tempo que o ser humano pode agendar ou controlar; é uma intervenção soberana de Deus.

A Conexão Prática na História da Salvação
Cullmann demonstra que a história bíblica é uma sucessão de Kairoi (plural de Kairos) dentro do grande rio do Chronos.
  1. A Encarnação como o Maior Kairos: Quando o apóstolo Paulo escreve que "vindo a plenitude dos tempos (Chronos), Deus enviou seu Filho" (Gálatas 4:4), ele está mostrando que o Chronos correu até o momento exato em que Deus fixou o Seu maior Kairos: a vinda de Jesus.
  2. O Sentido do Presente: O tempo em que vivemos hoje também é um Kairos. É o período oportuno e de graça dado às nações para o arrependimento.
Como isso responde aos outros teólogos?
  • Contra Bultmann: Bultmann achava que o Kairos era apenas uma decisão psicológica individual. Cullmann prova que os Kairoi bíblicos são fatos históricos objetivos fixados por Deus na linha do tempo, independentemente de o ser humano aceitá-los ou não.
  • Contra Schweitzer: Schweitzer achava que o atraso da segunda vinda anulava a mensagem de Jesus. Cullmann responde que o fim do mundo acontecerá no Kairos determinado pelo Pai (Atos 1:7). Portanto, o ser humano não deve calcular o Chronos (datas), mas discernir o Kairos (a missão do momento presente).
Em suma, para Cullmann, a eternidade não é o oposto do tempo, mas sim um Chronos infinito cheio de Kairoi divinos.

Para compreender o impacto completo da teologia de Oscar Cullmann, é preciso examinar as bases bíblicas que ele utilizou e as reações que sua obra gerou no meio acadêmico.
Versículos Bíblicos Utilizados por Cullmann
Cullmann baseou sua teoria da História da Salvação (Heilsgeschichte) em passagens que reforçam a linearidade do tempo e a distinção entre Chronos (tempo cronológico) e Kairos (momento oportuno).
  • Gálatas 4:4 – O Centro do Tempo: "Mas, vindo a plenitude dos tempos (chronos), Deus enviou seu Filho..."
    • Aplicação: Cullmann usa este texto para provar que a vinda de Cristo ocorreu em um ponto planejado e maduro da linha histórica.
  • Marcos 1:15 – A Invasão do Reino: "O tempo (kairos) está cumprido, e o reino de Deus está próximo."
    • Aplicação: Demonstra que Jesus iniciou um período qualitativamente novo na história; o "Dia D" havia começado.
  • Atos 1:7 – Soberania sobre o Calendário: "Não vos pertence saber os tempos (chronos) ou as épocas (kairos) que o Pai estabeleceu pelo seu próprio poder."
    • Aplicação: Justifica o período da Igreja. Os seres humanos não devem calcular a data do fim, pois os momentos pertencem ao plano de Deus.
  • Efésios 1:10 – A Linha Reta da História: "De fazer convergir em Cristo, na dispensação da plenitude dos tempos, todas as coisas..."
    • Aplicação: Fundamenta a visão de que a história não é cíclica (como no pensamento grego), mas caminha para um clímax unificado em Jesus.
  • Romanos 5:6 – O Momento Exato: "Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo (kairos) pelos ímpios."
    • Aplicação: A morte de Jesus não foi um acidente histórico, mas um evento cirúrgico no calendário da salvação.

As Principais Críticas Recebidas por Cullmann
Embora sua obra Cristo e o Tempo tenha sido revolucionária, ela recebeu duras críticas de historiadores, filósofos e teólogos contemporâneos e posteriores.
1. Crítica Linguística (James Barr)
A crítica mais devastadora veio do linguista e teólogo James Barr em seu livro The Semantics of Biblical Language (1961).
  • O argumento: Barr demonstrou que Cullmann forçou uma distinção artificial entre Chronos e Kairos.
  • No grego helenístico e no Novo Testamento, essas palavras frequentemente são usadas como sinônimos. Barr acusou Cullmann de construir uma grande teoria teológica baseada em um erro de interpretação gramatical.
2. Crítica da Relevância Moderna (Rudolf Bultmann)
Bultmann argumentou que a visão de Cullmann transformava a fé em um mero exercício de "acreditar em fatos passados".
  • O argumento: Para Bultmann, focar em uma linha do tempo objetiva remove o peso do "aqui e agora". O homem moderno não quer saber se o "Dia D" aconteceu há dois mil anos; ele precisa de uma resposta para sua angústia existencial de hoje.
3. Suposta Ingenuidade Histórica
Outros críticos apontaram que Cullmann tratou os relatos bíblicos como "história pura", ignorando que os próprios autores dos Evangelhos moldavam as narrativas para atender a interesses teológicos de suas comunidades. Para esses críticos, a "História da Salvação" é uma construção interpretativa da Igreja, e não história factual bruta.
4. O Problema da Escatologia Prolongada
Ao enfatizar que o "atraso da Parusia" era planejado, alguns estudiosos alegaram que Cullmann enfraqueceu o senso de urgência que os primeiros cristãos claramente possuíam. Se o tempo da Igreja pode durar milênios, a iminência do retorno de Cristo perde o sentido prático.

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