O filósofo alemão Martin Heidegger foi a principal fundação intelectual da teologia de Rudolf Bultmann. A relação entre os dois se estreitou na década de 1920, quando foram colegas na Universidade de Marburg, período em que Heidegger estava escrevendo sua obra-prima, Ser e Tempo (1927). [1, 2, 3]
Heidegger forneceu a Bultmann o vocabulário e a estrutura conceitual para traduzir a Bíblia para o homem moderno.
1. A Estrutura da Existência Humana (O Dasein)
Heidegger analisou o ser humano não como uma "coisa" no mundo, mas como Dasein (Ser-aí), um ser que define sua própria identidade através de suas escolhas e que vive sob a constante sombra da morte e da ansiedade. [1, 2]
- Apropriação de Bultmann: O teólogo percebeu que essa descrição da condição humana feita por Heidegger era idêntica à descrição que o apóstolo Paulo e o Evangelho de João faziam do ser humano sem Deus. Bultmann usou a filosofia de Heidegger como o diagnóstico perfeito do problema humano.
2. Existência Inautêntica vs. Existência Autêntica
Heidegger dividiu a vida humana em dois modos de ser: [1]
- Inautêntica: Onde o indivíduo perde sua individualidade, vive de forma superficial, focado nas preocupações do dia a dia e no que a massa ("o eles") dita. Ele busca segurança nas coisas materiais. [1]
- Autêntica: Onde o indivíduo aceita sua finitude, assume a responsabilidade por suas próprias escolhas e encara a realidade da morte de frente. [1, 2, 3]
- Apropriação de Bultmann: O teólogo cristianizou esses conceitos. Ele igualou a vida inautêntica ao "pecado" (a tentativa humana de encontrar segurança nas próprias obras e no mundo material). A vida autêntica virou a "vida de fé" (viver na liberdade do futuro de Deus, desapegado das falsas seguranças do mundo).
3. O Papel do "Acontecimento" (Ereignis) e a Decisão
Para Heidegger, o homem não chega à autenticidade por meio de um raciocínio lógico, mas ao ser confrontado por um evento ou chamado que exige uma decisão existencial.
- Apropriação de Bultmann: Esse conceito fundamentou o Querigma (a pregação bíblica). Para Bultmann, quando o Evangelho é pregado, ele funciona como esse chamado existencial. Ele não transmite informações históricas do passado, mas confronta o ouvinte hoje, exigindo uma decisão imediata entre continuar no pecado (inautenticidade) ou entregar-se à fé (autenticidade).
A Diferença Crucial (O Limite da Influência)
Apesar de usar toda a estrutura de Heidegger, Bultmann estabeleceu uma linha vermelha teológica que o separava do filósofo: [1]
- Para Heidegger (Filosofia): O ser humano tem, por si só, a capacidade e a força de tomar a decisão e passar da vida inautêntica para a autêntica. O homem salva a si mesmo pela autocompreensão.
- Para Bultmann (Teologia): O ser humano está tão corrompido pelo pecado (inautenticidade) que é incapaz de se libertar sozinho. Ele precisa de um ato de libertação vindo de fora. Esse ato é a graça de Deus manifestada na cruz de Cristo. A filosofia diagnostica a doença, mas só o Evangelho traz a cura.
Nenhum comentário:
Postar um comentário