sábado, 27 de junho de 2026

O Pensamento de Rudolf Bultmann Em Contraste com Karl Jaspers

 




O teólogo luterano alemão Rudolf Bultmann (1884–1976) foi um dos maiores estudiosos do Novo Testamento do século XX. Ele ficou conhecido por criar o método da desmitologização, que busca separar a mensagem cristã essencial das visões de mundo antigas e míticas da Bíblia. 

Biografia
  • Formação e Carreira: Nascido na Alemanha, estudou teologia e fez seu doutorado. Ele foi professor de Novo Testamento na Universidade de Marburg a partir de 1921, onde trabalhou a maior parte de sua vida. 
  • Influência: Ele usou a filosofia existencialista (especialmente as ideias de Martin Heidegger) para reinterpretar os textos sagrados para o homem moderno. 
  • Vida Pessoal: Apesar de suas ideias acadêmicas consideradas radicais, ele viveu uma vida de fé simples e atuou como diácono em sua igreja até falecer aos 92 anos. 
Teologia e o Novo Testamento
  • O Problema do Mito: Bultmann dizia que o homem moderno, acostumado com a ciência e a tecnologia, não consegue mais acreditar no "universo de três andares" descrito na Bíblia (céu em cima, terra no meio e inferno embaixo) ou em intervenções sobrenaturais diretas, como demônios e milagres. 
  • Desmitologização: Ele propôs que o texto bíblico fosse desmitologizado, ou seja, despido dessa roupagem mítica antiga. O objetivo não era destruir o texto, mas extrair o seu verdadeiro significado para a vida atual. 
  • Interpretação Existencial: Bultmann defendia que a mensagem do Novo Testamento desafia o ser humano a tomar uma decisão sobre como viver. Por exemplo, a ressurreição de Jesus não deveria ser vista apenas como um evento físico ou histórico a ser provado, mas como um chamado para uma nova vida de autenticidade e fé, deixando para trás uma vida voltada para si mesmo. 
  • O Querigma: Ele focava no querigma, que significa a "mensagem proclamada". Para Bultmann, o encontro com Jesus Cristo acontece hoje através da pregação, que confronta a pessoa e exige uma decisão de fé, superando a necessidade de buscar provas históricas sobre a vida de Jesus.

As críticas à desmitologização de Rudolf Bultmann vieram de todos os lados do espectro teológico e filosófico, tornando sua proposta uma das mais debatidas do século XX
1. Críticas de Teólogos Conservadores e Ortodoxos
Os teólogos mais tradicionais acusaram Bultmann de esvaziar o cristianismo de seus fundamentos históricos e sobrenaturais. 
  • Negação do Sobrenatural: Ao tratar milagres, o nascimento virginal e a ressurreição física como "mitos" literários, ele foi acusado de rebaixar a Bíblia ao nível de qualquer outro livro mitológico. 
  • Perda da Historicidade: Críticos argumentaram que a fé cristã depende de fatos históricos reais (como o túmulo vazio). Sem a base histórica, o cristianismo viraria apenas uma filosofia de vida subjetiva. 
2. Críticas de Teólogos Liberais e Radicais
Do outro lado, pensadores mais liberais achavam que Bultmann não foi longe o suficiente na sua modernização. 
  • Incoerência no Querigma: Críticos como o filósofo Karl Jaspers apontaram que Bultmann eliminou os mitos do Novo Testamento, mas manteve o maior deles: a ideia de que Deus agiu de forma única e exclusiva na história por meio de Jesus. Para os liberais, isso era contraditório. 
3. Críticas Teocêntricas (Karl Barth)
O influente teólogo Karl Barth, embora amigo de Bultmann, divergiu fortemente de seu método.
  • Antropocentrismo: Barth criticou Bultmann por focar demais no ser humano (antropocentrismo) e de menos em Deus (teocentrismo). Ao transformar a mensagem da Bíblia em uma explicação sobre a "existência humana", Bultmann estaria limitando Deus à psicologia ou à filosofia humana. 
4. Críticas Literárias e Filosóficas
Escritores e intelectuais também questionaram a validade de sua leitura dos textos antigos.
  • Má Crítica Literária: O escritor C.S. Lewis argumentou que Bultmann falhou como crítico literário ao impor conceitos científicos modernos a textos antigos que não foram escritos com essa mentalidade. 
  • Refém de Heidegger: Outros intelectuais apontaram que Bultmann amarrou o Novo Testamento excessivamente à filosofia existencialista de Martin Heidegger, tornando o Evangelho dependente de um sistema filosófico específico da década de 1920. 
5. Críticas Sociais (Teoria Crítica)
Pensadores da área das ciências sociais argumentaram que o foco de Bultmann na "autenticidade individual" ignorava as injustiças do mundo real. Para eles, a teologia deve transformar as estruturas opressivas da sociedade, e não apenas o interior de cada indivíduo.

O debate público entre o filósofo existencialista Karl Jaspers e o teólogo Rudolf Bultmann, ocorrido na década de 1950, é um dos diálogos intelectuais mais fascinantes do século XX. Ele começou após uma palestra de Jaspers em 1953 na Suíça e gerou uma série de artigos de resposta e contra-resposta, posteriormente reunidos no livro Mito e Cristianismo (Die Frage der Entmythologisierung). 
Embora ambos partissem do existencialismo, eles divergiam profundamente sobre o papel do mito e a exclusividade do cristianismo.

1. A Crítica de Karl Jaspers a Bultmann
Jaspers atacou os dois pilares do pensamento de Bultmann: a sua obsessão pela ciência moderna e o seu apego à exclusividade cristã. 
  • Bultmann é "cientificista" demais: Jaspers argumentou que Bultmann capitulou diante da mentalidade científica moderna. Para o filósofo, a ciência serve para explicar o mundo físico, mas é incapaz de tocar nas verdades profundas da existência humana e da transcendência. 
  • O Mito é insubstituível (Teoria dos Códigos): Jaspers defendia que o mito não é uma "ciência primitiva" que precisa ser descartada ou traduzida. O mito é uma linguagem simbólica indispensável — que ele chamava de "cifras" ou "códigos" (Chiffren). Certas realidades existenciais e espirituais só podem ser expressas por meio de imagens míticas; tentar "desmitologizar" o texto destrói o próprio mistério que ele carrega. 
  • O "Mito" da Exclusividade Cristã: Jaspers (que defendia uma "fé filosófica" universal) criticou duramente o apego de Bultmann ao Querigma (a proclamação de que a salvação só acontece através de Jesus). Para Jaspers, afirmar que Deus se revelou de forma única e definitiva em apenas um evento histórico e em uma única cultura era uma atitude dogmática e intolerante. 

2. A Resposta e Defesa de Rudolf Bultmann
Bultmann respondeu defendendo que Jaspers operava como um filósofo de gabinete e não compreendia a realidade prática da pregação cristã e da teologia. 
  • Desmitologizar não é eliminar: Bultmann esclareceu que seu objetivo nunca foi "jogar o mito fora", mas sim interpretá-lo. Ele concordava que o mito fala sobre a existência humana, mas insistia que a linguagem mítica antiga criava uma barreira intelectual desnecessária para o homem moderno, que precisava ser removida para que a mensagem central fizesse sentido. 
  • A Necessidade do Escândalo da Fé: Contra a "fé filosófica" e universal de Jaspers, Bultmann defendeu que o cristianismo é, por definição, um escândalo histórico. A fé cristã não nasce de uma reflexão filosófica geral sobre o universo, mas de um encontro concreto com a palavra proclamada (o Querigma) sobre um evento histórico: a cruz e a ressurreição. 
  • Filosofia vs. Revelação: Bultmann argumentou que a filosofia (incluindo a de Jaspers) assume erroneamente que o ser humano tem a capacidade de salvar a si mesmo por meio do pensamento. Para o teólogo, o homem está "preso" em sua própria ansiedade e egoísmo, e só pode ser libertado por um ato de Deus vindo de fora (a Revelação), o que exige uma decisão de fé. 

Resumo do Embate
O debate pode ser resumido em duas visões opostas sobre a verdade espiritual:
Tema Karl Jaspers (Filósofo)Rudolf Bultmann (Teólogo)
O MitoÉ uma linguagem simbólica universal ("cifra") que não deve ser traduzida.É uma roupagem antiga que precisa ser interpretada existencialmente.
A VerdadeÉ universal, filosófica e acessível a todas as culturas (Ocidente e Oriente).É particular, revelada por Deus especificamente em Jesus Cristo.
A FéÉ uma atitude de abertura à Transcendência, sem dogmas fixos.É uma decisão obediente diante da mensagem do Evangelho.
 
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Obras Importantes
As principais publicações onde ele desenvolveu seus pensamentos incluem:
  • Jesus (1926)
  • O Evangelho de João (1941)
  • Teologia do Novo Testamento
  • Jesus Cristo e a Mitologia 

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